Por: Luigi Wagner
Com a ascensão dos jogos narrativamente focados, o design
clássico de games que imperam desafios sobre o jogador tem desaparecido
gradativamente. Isso acontece pelo simples fato de que a dificuldade pode
facilmente desestimular um jogador “mediano” a chegar ao fim da história em um
jogo.
Essa trend de
jogos mais fáceis no mercado também se deve a crescente popularização dos
videogames na cultura popular, sendo os mais populares, normalmente, jogos de
grande orçamento (os chamados AAA, ou Triple-A). “Dificultar a vida” do jogador
casual pode facilmente anular as chances de sucesso do game.
Porém, existe uma produtora que simplesmente não liga
para essa “corrente”.
Conhecida pelos amados e temidos Demon’s Souls e Dark Souls (1 e 2), a From Software se
destaca na indústria por elevar a dificuldade de seus games ao máximo (mesmo
se tratando de jogos AAA), punindo o
jogador corriqueiramente até este entender todas as regras do meticuloso game design de seus jogos. Essa
filosofia da desenvolvedora se deve em especial a seu diretor, Hidetaka
Miyazaki, que faz questão de criar games old
school, onde a dificuldade e o aprendizado são pilares fundamentais da experiência.
Eis que agora, sob a pressão de lançar o atual
carro-chefe do Playstation 4 em 2015, Miyazaki lança sua mais nova e punitiva
obra: Bloodborne.
ENREDO
Bloodborne se passa em uma decrépita cidade Gótica
chamada Yharnam, onde se diz existir uma potente substância-remédio. Há anos,
muitos viajantes rumam para Yharnam na procura dessa substância curadora para
suas aflições.
O jogador é colocado no papel de um destes viajantes.
Chegando lá, porém, é descoberto que a cidade se encontra infestada com uma
praga endêmica que transformou a maioria de seus habitantes em criaturas
bestiais. O jogador então deve navegar pelas ruas de Yharnam e enfrentar os
seus atormentados habitantes e temerosos monstros na tentativa de sobreviver.
Bloodborne não se encaixa na definição de um jogo “narrativamente-focado”.
A narrativa no jogo é contada de forma esparsa, sem
muitos personagens ou diálogos e com explicações sobre a mitologia se limitando
para não “especificarem” demais.
O game se restringe basicamente a chamada
narrativa-ambiental, onde os ambientes,
criaturas e atmosfera tomam conta das
rédeas da história, e assim, desenvolvem aquele mundo simplesmente por meio do
desbravamento das ambientações.
Apesar de não contar com um enredo que se embasa em algum
tipo de conflito emocional ou pessoal, Bloodborne evoca mais emoções no jogador
do que a maioria dos games por ai, puramente, através de seu genial e brutal game design.
JOGABILIDADE
A REGRA NÃO É CLARA
Esqueça todas as regras que você está acostumado a ver
nos videogames. Bloodborne te joga no mundo sem lhe dar a menor explicação sobre
o que fazer, como fazer ou para onde ir. Nem mesmo o comando de “atacar” é
ensinado ao jogador. Você deve se virar para descobrir tudo, e o game não lhe
dá a menor indicação sobre como o
fazer.
As primeiras horas em Bloodborne são absurdamente
brutais, especialmente se você não é um jogador habitual da série Souls. Você
vai morrer constantemente. E o mais intimidante é que você vai morrer vez
após vez sem nem ter ideia se está indo no caminho certo.
Alguns podem
argumentar que é uma escolha pobre de game
design, mas uma coisa é inegável, Bloodborne te pune sem dó alguma, e só os
mais persistentes perseveram na aventura.
Estes que perseveram, porém, viverão o suficiente para
descobrir uma das mais revigorantes, intensas e brilhantes obras nos videogames
nos últimos anos.
Depois de mais de três horas adentro de Bloodborne eu
ainda me via perguntando: “Que p**ra é essa?!”, “Que p**ra eu preciso fazer?!”,
ou então gritando “Essa m**da é simplesmente impossível!”. A primeira seção do
jogo por si só é um teste de sanidade. Você luta o seu caminho através das ruas
constantemente para, quando finalmente obter sucesso em passar daquele trecho,
ser dilacerado por um inimigo na próxima esquina, e assim, ser obrigado a
voltar para o ponto de partida inicial.
Porém, à medida que você começa a entender o
funcionamento das mecânicas, o comportamento de seus inimigos e toda a façanha
necessária para lhe manter vivo “só por mais um tempinho, até a próxima marca”,
Bloodborne começa a dizer a que veio.
Descobrir um atalho para um lugar que você precisava
enfrentar dezenas de inimigos para chegar é um dos marcos para a primeira impressão
que o game dá de não ser literalmente impossível.
OS
INFAMES BOSSES
Se em suas seções “normais” Bloodborne já se mostra como
um desafio intimidador, são mesmo nos Chefões que o game eleva seu potencial de
dificuldade a níveis realmente brutais.
Os bosses são o pináculo dos confrontos de cada seção do
jogo, e são o “teste final” para permitir o jogador a avançar. Existem alguns
mais “acessíveis” que outros, mas o padrão requer que toda a experiência e
sagacidade que o jogador acumulou até aquele momento sejam postas em ação.
As batalhas com esses chefões são, em sua maioria também, um espetáculo a parte no jogo. Cada uma requerendo uma estratégia de aproximação diferente, são sempre também caracterizadas pela intensidade e euforia que não cessam até a próxima parada, seja essa o sucesso ou sua morte. E quando estas se encerram na vitória... Haja emoção para o jogador que teve que se empenhar talvez até horas naquela batalha. Derrotar um desses monstros e ver a mensagem de “PRESA ABATIDA” surgir na tela é uma das sensações mais revigorantes que tive o prazer de experienciar nos últimos anos em um jogo, e na euforia do momento é impossível não jogar os braços para cima e gritar um empolgado “TOMA!” ou um“CHUPA!” para a tela.
AJUDA
ALHEIA
Quando a situação aperta, é possível também chamar por
ajuda no modo cooperativo online. Tocando um sino, pode ser que surja um
companheiro disposto a lhe ajudar a passar daquela seção na qual aparenta ser
impossível de se virar sozinho. Da mesma forma, jogadores infames podem invadir
seu jogo na tentativa de lhe matar e impedir seu progresso, dando origem a
momentos particularmente inspirados e surpreendentes.
Em questão de longevidade, Bloodborne também não faz
feio. Em sua primeira playthrough o jogo pode facilmente render de 30 a 40
horas. E fora a campanha principal, o game ainda conta com os chamados Chalice
Dungeons, estes que são áreas desafiadoras de combate, ou projetadas ou
randomicamente geradas, que estendem ainda mais o tempo de jogatina. E
terminando a campanha principal, Bloodborne ainda introduz um New Game+, que
lhe permite começar o jogo com seus status e armas anteriores, porém sob um
nível de dificuldade ainda mais insano (os próprios produtores do jogo disseram
ter problemas em zerar o jogo neste modo).
Ainda permitindo a adaptação a estilos de jogo mais
particulares, Bloodborne oferece uma gama de armas para montar o arsenal, sendo
que estas são diferenciadas em armas de mão-direita (cutelos, espadas, machados
etc) e armas de mão-esquerda (pistolas, espingardas etc), podendo ser evoluídas,
ficando assim, mais eficientes.
Seguindo os padrões de evolução de um RPG, Bloodborne
requer constante evolução de atributos, e upar de nível pode ser o diferencial em
vencer ou não uma batalha. Para subir de nível é necessários juntar Ecos de
Sangue (como se fossem as almas em Demon’s e Dark Souls). A pegada aqui é que,
morrendo, você simplesmente perde todos os Ecos, possuindo apenas uma chance de
recuperá-los no local onde morreu anteriormente. Nesse sentido o jogo lhe pune
se você é ambicioso demais, sendo recomendado canalizar os ecos constantemente
(ou então gastá-los com armamentos e afins), para não correr o risco de perdê-los
no combate.
NOVATOS
SÃO BEM-VINDOS
Com seu ritmo de jogo notavelmente mais acelerado e visceral
que Dark Souls e Demon’s Souls, Bloodborne é inerentemente mais frenético de se
jogar também.
Enquanto os jogos Souls priorizavam a defesa e ataque
sincronizados, Bloodborne se embasa na filosofia de que o ataque é a melhor
defesa. O jogo pune a estática, à medida que a movimentação, esquiva e ataque são
profundamente encorajados. O game conta inclusive com um sistema que permite o
reganho de parcela do sangue que você perdeu quando atacado por um inimigo se
este for contra-atacado em uma janela de tempo instantânea, assim motivando
constantemente a reação ao invés da defesa reclusa.
Essa intensidade na jogabilidade de Bloodborne pode
tornar o jogo interessante inclusive para os novatos e inexperientes nos jogos
de Miyazaki (como eu), sendo um ponto de entrada ideal para os jogos da série.
Combinando uma jogabilidade intensa e meticulosa com um level design primoroso que incentiva a exploração
de forma extremamente eficiente, Bloodborne é uma obra-prima em termos de game design e, indiscutivelmente, o
melhor trabalho da From Software até hoje.
APRESENTAÇÃO
Se já pelo ritmo de jogo, Bloodborne já se mostra mais
interessante à primeira vista que os outros games de Miyazaki, o mesmo pode ser
dito sobre os seus visuais.
Contando com uma direção de Arte espetacular, Bloodborne
é um trato para os olhos. Com seus castelos e arquitetura gótica, Yharnam é um
lugar que inspira uma atmosfera poderosa e assustadoramente macabra.
O design dos inimigos também merece aplausos. Evocando
profundamente criaturas
Lovecraftianas, estes são sempre invariavelmente
grotescos e macabros, mas sempre diversificados, com destaque para os chefões
que intimidam antes mesmo das batalhas simplesmente com suas aparências.
Com todo este clima e atmosfera sinistra, não seria errado
rotular Bloodborne como um game de terror, uma vez que é perfeitamente normal
se sentir perturbado pelo macabro mundo do jogo.
Rodando na maior parte do tempo de forma estável a 30 fps
(raramente, mas ocasionalmente, a taxa de frames caía), o game também é um
feito técnico para o Playstation 4, com efeitos de iluminação e partículas
notavelmente impressionantes.
Para finalizar, Bloodborne ainda conta com uma trilha-sonora
eficientíssima, que varia do melancólico ao macabro até o épico, sempre
complementando a atmosfera do jogo de forma fenomenal.
CONCLUSÃO
Apesar de não ser necessariamente “amigável” aos jogadores
mais casuais, Bloodborne é uma pérola que quanto mais compreendida, mais é apreciada.
E mesmo com todo o tempo necessário para aprender seu funcionamento e mecânicas,
o jogo não deixa de ser unicamente recompensador nos momentos de mais triunfo.
Com um design caracterizado por provocar constantemente
uma “montanha-russa de emoções” (estas que vão facilmente da raiva ao delírio),
Bloodborne é uma experiência única e brilhante em sua essência.
É facilmente não só o melhor game da From Software até
hoje, mas também o melhor game disponível nessa nova geração de consoles até
agora, sendo talvez o primeiro jogo que realmente justifique a compra de um
novo console.
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