domingo, 12 de abril de 2015

Análise - Bloodborne












Com a ascensão dos jogos narrativamente focados, o design clássico de games que imperam desafios sobre o jogador tem desaparecido gradativamente. Isso acontece pelo simples fato de que a dificuldade pode facilmente desestimular um jogador “mediano” a chegar ao fim da história em um jogo. 

Essa trend de jogos mais fáceis no mercado também se deve a crescente popularização dos videogames na cultura popular, sendo os mais populares, normalmente, jogos de grande orçamento (os chamados AAA, ou Triple-A). “Dificultar a vida” do jogador casual pode facilmente anular as chances de sucesso do game.

Porém, existe uma produtora que simplesmente não liga para essa “corrente”.



Conhecida pelos amados e temidos Demon’s Souls  e Dark Souls (1 e 2), a From Software se destaca na indústria por elevar a dificuldade de seus games ao máximo (mesmo se  tratando de jogos AAA), punindo o jogador corriqueiramente até este entender todas as regras do meticuloso game design de seus jogos. Essa filosofia da desenvolvedora se deve em especial a seu diretor, Hidetaka Miyazaki, que faz questão de criar games old school, onde a dificuldade e o aprendizado são pilares fundamentais da experiência.

Eis que agora, sob a pressão de lançar o atual carro-chefe do Playstation 4 em 2015, Miyazaki lança sua mais nova e punitiva obra: Bloodborne.

ENREDO

Bloodborne se passa em uma decrépita cidade Gótica chamada Yharnam, onde se diz existir uma potente substância-remédio. Há anos, muitos viajantes rumam para Yharnam na procura dessa substância curadora para suas aflições.



O jogador é colocado no papel de um destes viajantes. Chegando lá, porém, é descoberto que a cidade se encontra infestada com uma praga endêmica que transformou a maioria de seus habitantes em criaturas bestiais. O jogador então deve navegar pelas ruas de Yharnam e enfrentar os seus atormentados habitantes e temerosos monstros na tentativa de sobreviver.

Bloodborne não se encaixa na definição de um jogo “narrativamente-focado”.

A narrativa no jogo é contada de forma esparsa, sem muitos personagens ou diálogos e com explicações sobre a mitologia se limitando para não “especificarem” demais.









O game se restringe basicamente a chamada narrativa-ambiental, onde os ambientes, 
criaturas e atmosfera tomam conta das rédeas da história, e assim, desenvolvem aquele mundo simplesmente por meio do desbravamento das ambientações.

Apesar de não contar com um enredo que se embasa em algum tipo de conflito emocional ou pessoal, Bloodborne evoca mais emoções no jogador do que a maioria dos games por ai, puramente, através de seu genial e brutal game design.

JOGABILIDADE

A REGRA NÃO É CLARA

Esqueça todas as regras que você está acostumado a ver nos videogames. Bloodborne te joga no mundo sem lhe dar a menor explicação sobre o que fazer, como fazer ou para onde ir. Nem mesmo o comando de “atacar” é ensinado ao jogador. Você deve se virar para descobrir tudo, e o game não lhe dá a menor indicação sobre como o fazer.



As primeiras horas em Bloodborne são absurdamente brutais, especialmente se você não é um jogador habitual da série Souls. Você vai morrer constantemente. E o mais intimidante é que você vai morrer vez após vez sem nem ter ideia se está indo no caminho certo. 
Alguns podem argumentar que é uma escolha pobre de game design, mas uma coisa é inegável, Bloodborne te pune sem dó alguma, e só os mais persistentes perseveram na aventura.

Estes que perseveram, porém, viverão o suficiente para descobrir uma das mais revigorantes, intensas e brilhantes obras nos videogames nos últimos anos.



Depois de mais de três horas adentro de Bloodborne eu ainda me via perguntando: “Que p**ra é essa?!”, “Que p**ra eu preciso fazer?!”, ou então gritando “Essa m**da é simplesmente impossível!”. A primeira seção do jogo por si só é um teste de sanidade. Você luta o seu caminho através das ruas constantemente para, quando finalmente obter sucesso em passar daquele trecho, ser dilacerado por um inimigo na próxima esquina, e assim, ser obrigado a voltar para o ponto de partida inicial.



Porém, à medida que você começa a entender o funcionamento das mecânicas, o comportamento de seus inimigos e toda a façanha necessária para lhe manter vivo “só por mais um tempinho, até a próxima marca”, Bloodborne começa a dizer a que veio.

Descobrir um atalho para um lugar que você precisava enfrentar dezenas de inimigos para chegar é um dos marcos para a primeira impressão que o game dá de não ser literalmente impossível.

OS INFAMES BOSSES



Se em suas seções “normais” Bloodborne já se mostra como um desafio intimidador, são mesmo nos Chefões que o game eleva seu potencial de dificuldade a níveis realmente brutais.

Os bosses são o pináculo dos confrontos de cada seção do jogo, e são o “teste final” para permitir o jogador a avançar. Existem alguns mais “acessíveis” que outros, mas o padrão requer que toda a experiência e sagacidade que o jogador acumulou até aquele momento sejam postas em ação.










As batalhas com esses chefões são, em sua maioria também, um espetáculo a parte no jogo. Cada uma requerendo uma estratégia de aproximação diferente, são sempre também caracterizadas pela intensidade e euforia que não cessam até a próxima parada, seja essa o sucesso ou sua morte. E quando estas se encerram na vitória... Haja emoção para o jogador que teve que se empenhar talvez até horas naquela batalha. Derrotar um desses monstros e ver a mensagem de “PRESA ABATIDA” surgir na tela é uma das sensações mais revigorantes que tive o prazer de experienciar nos últimos anos em um jogo, e na euforia do momento é impossível não jogar os braços para cima e gritar um empolgado “TOMA!” ou um“CHUPA!” para a tela. 

AJUDA ALHEIA



Quando a situação aperta, é possível também chamar por ajuda no modo cooperativo online. Tocando um sino, pode ser que surja um companheiro disposto a lhe ajudar a passar daquela seção na qual aparenta ser impossível de se virar sozinho. Da mesma forma, jogadores infames podem invadir seu jogo na tentativa de lhe matar e impedir seu progresso, dando origem a momentos particularmente inspirados e surpreendentes.



Em questão de longevidade, Bloodborne também não faz feio. Em sua primeira playthrough o jogo pode facilmente render de 30 a 40 horas. E fora a campanha principal, o game ainda conta com os chamados Chalice Dungeons, estes que são áreas desafiadoras de combate, ou projetadas ou randomicamente geradas, que estendem ainda mais o tempo de jogatina. E terminando a campanha principal, Bloodborne ainda introduz um New Game+, que lhe permite começar o jogo com seus status e armas anteriores, porém sob um nível de dificuldade ainda mais insano (os próprios produtores do jogo disseram ter problemas em zerar o jogo neste modo).



Ainda permitindo a adaptação a estilos de jogo mais particulares, Bloodborne oferece uma gama de armas para montar o arsenal, sendo que estas são diferenciadas em armas de mão-direita (cutelos, espadas, machados etc) e armas de mão-esquerda (pistolas, espingardas etc), podendo ser evoluídas, ficando assim, mais eficientes.



Seguindo os padrões de evolução de um RPG, Bloodborne requer constante evolução de atributos, e upar de nível pode ser o diferencial em vencer ou não uma batalha. Para subir de nível é necessários juntar Ecos de Sangue (como se fossem as almas em Demon’s e Dark Souls). A pegada aqui é que, morrendo, você simplesmente perde todos os Ecos, possuindo apenas uma chance de recuperá-los no local onde morreu anteriormente. Nesse sentido o jogo lhe pune se você é ambicioso demais, sendo recomendado canalizar os ecos constantemente (ou então gastá-los com armamentos e afins), para não correr o risco de perdê-los no combate.



NOVATOS SÃO BEM-VINDOS

Com seu ritmo de jogo notavelmente mais acelerado e visceral que Dark Souls e Demon’s Souls, Bloodborne é inerentemente mais frenético de se jogar também.



Enquanto os jogos Souls priorizavam a defesa e ataque sincronizados, Bloodborne se embasa na filosofia de que o ataque é a melhor defesa. O jogo pune a estática, à medida que a movimentação, esquiva e ataque são profundamente encorajados. O game conta inclusive com um sistema que permite o reganho de parcela do sangue que você perdeu quando atacado por um inimigo se este for contra-atacado em uma janela de tempo instantânea, assim motivando constantemente a reação ao invés da defesa reclusa.

Essa intensidade na jogabilidade de Bloodborne pode tornar o jogo interessante inclusive para os novatos e inexperientes nos jogos de Miyazaki (como eu), sendo um ponto de entrada ideal para os jogos da série.



Combinando uma jogabilidade intensa e meticulosa com um level design primoroso que incentiva a exploração de forma extremamente eficiente, Bloodborne é uma obra-prima em termos de game design e, indiscutivelmente, o melhor trabalho da From Software até hoje.

APRESENTAÇÃO



Se já pelo ritmo de jogo, Bloodborne já se mostra mais interessante à primeira vista que os outros games de Miyazaki, o mesmo pode ser dito sobre os seus visuais.

Contando com uma direção de Arte espetacular, Bloodborne é um trato para os olhos. Com seus castelos e arquitetura gótica, Yharnam é um lugar que inspira uma atmosfera poderosa e assustadoramente macabra.





O design dos inimigos também merece aplausos. Evocando profundamente criaturas 
Lovecraftianas, estes são sempre invariavelmente grotescos e macabros, mas sempre diversificados, com destaque para os chefões que intimidam antes mesmo das batalhas simplesmente com suas aparências.

Com todo este clima e atmosfera sinistra, não seria errado rotular Bloodborne como um game de terror, uma vez que é perfeitamente normal se sentir perturbado pelo macabro mundo do jogo.



Rodando na maior parte do tempo de forma estável a 30 fps (raramente, mas ocasionalmente, a taxa de frames caía), o game também é um feito técnico para o Playstation 4, com efeitos de iluminação e partículas notavelmente impressionantes.

Para finalizar, Bloodborne ainda conta com uma trilha-sonora eficientíssima, que varia do melancólico ao macabro até o épico, sempre complementando a atmosfera do jogo de forma fenomenal.

CONCLUSÃO



Apesar de não ser necessariamente “amigável” aos jogadores mais casuais, Bloodborne é uma pérola que quanto mais compreendida, mais é apreciada. E mesmo com todo o tempo necessário para aprender seu funcionamento e mecânicas, o jogo não deixa de ser unicamente recompensador nos momentos de mais triunfo.

Com um design caracterizado por provocar constantemente uma “montanha-russa de emoções” (estas que vão facilmente da raiva ao delírio), Bloodborne é uma experiência única e brilhante em sua essência.


É facilmente não só o melhor game da From Software até hoje, mas também o melhor game disponível nessa nova geração de consoles até agora, sendo talvez o primeiro jogo que realmente justifique a compra de um novo console.



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