Por: Luigi Wagner
Introduzida no mundo dos games há dezoito anos com Fallout (1997), a franquia pós-apocalíptica criada pela Interplay Entertainment demorou a chamar a atenção de grande parte dos gamers. Foi somente em 2008, nas mãos da Bethesda Studios (Oblivion, Skyrim) com Fallout 3, que a série chegou ao conhecimento “mainstream” da indústria.
Mudando da perspectiva top-down dos games anteriores, Fallout 3 adequava a franquia pós-apocalíptica ao modelo de um first person shooter da atualidade, no processo, preservando também os sistemas intrínsecos de RPG pelos quais a série era conhecida.
Somente agora, sete anos depois do lançamento do último jogo principal da série (New Vegas foi um spin-off por parte da Obsidian), que Fallout finalmente ressurge nas bases de um hype inimaginável agregado pelos fãs.
HISTÓRIA
Iniciando a trama em 2077, Fallout 4, pela primeira vez na série, dá um vislumbre no passado pré-Guerra (responsável pelo holocausto nuclear naquele universo).
Em algures de Massachusetts, somos introduzidos a uma família que remete ao clássico arquétipo da “família ideal americana”. Constituída por um pai, mãe e filho, é bem claro estarmos diante da usual imagem da família norte-americana propagada pelos Estados Unidos nos anos 50.
A situação de tranquilidade daquelas pessoas logo é perturbada quando os jornais começam a divulgar a ocorrência de um estopim nuclear em várias partes do mundo, forçando a família a se deslocar para um dos vários abrigos nucleares espalhados pelo país (os famosos vaults).
Depois de uma série de eventos que culminam no desaparecimento de seu filho, nosso (a) protagonista acorda 210 anos depois de um processo de congelamento criogênico, sendo apresentado à um mundo desolado pelo holocausto, onde a vida difere completamente daquela anteriormente conhecida.
Saindo a procura da criança por toda a Commonwealth (a região de Massachusetts na qual o jogo se passa), ao longo da jornada, o (a) protagonista é introduzido à uma série de facções que lutam por ideologias diferentes quanto à forma de como o mundo deveria voltar a ser, no processo, se envolvendo em intrigas que trazem impactos imensos ao futuro da Commonwealth.
Fallout 4 traz um tom de pessoalidade à narrativa muito bem-vindo à série. Desde a premissa, embasada claramente em um proposito pessoal, até o fato de que, pela primeira vez na franquia, temos um protagonista com voz (aqui, interpretados de forma competente por Brian T. Delaney, na versão masculina, e Courtenay Taylor, na feminina), fica claro que a Bethesda quis dar à Fallout uma faceta mais humana no quesito narrativo desta vez.
Essa tentativa de adicionar uma pegada emocional à história nem sempre funciona como esperado, muitas vezes ficando aparente que, em certos momentos que a história pede um nível maior de empatia do jogador, o objetivo simplesmente não é alcançado, fadando certas batidas da trama que deveriam emocionar à um olhar simplesmente indiferente por parte do jogador.
Não que a trama seja majoritariamente desinteressante. Em vários momentos o jogo empolga ao longo de sua história principal, estimulando interesse do jogador especialmente quando notamos o peso de nossas escolhas no norteamento da trama (e a narrativa pode tomar caminhos notavelmente diferentes dependendo de quais “lados” o jogador decidir com que se alinhar).
Vale apontar ainda que, pela primeira vez em um de seus jogos, a Bethesda consegue criar um elenco de figuras interessantes e até cativantes, especialmente com relação aos companions que podem acompanhar o jogador ao longo do game. Dentre estes, destaque especial para a jornalista Piper, que consegue ser uma das personalidades mais interessantes e complexas que conhecemos em Fallout 4.
Fora da história principal, Fallout 4 também surpreende positivamente com uma imensidão de side quests que, com competência, contribuem para o estabelecimento daquele mundo.
Falando neste, é preciso apontar que, mais uma vez (como é de costume nos jogos da Bethesda), o grande destaque da experiência vai para o mundo do jogo, que aqui é concebido de maneira magistral, casado com a criação de uma atmosfera densa e que é a principal responsável pela imersão naquele universo (algo no qual poucas desenvolvedoras por aí conseguem conceber de maneira tão competente). Poucos minutos adentro do jogo já é eficientemente estabelecido que a Commonwealth é um lugar plenamente ameaçador para se viver, mas com histórias igualmente fascinantes para se contar.
JOGABILIDADE
A estrutura de jogo de Fallout 4 em pouco difere daquela vista em Fallout 3.
Sob a mantra de um FPS, o jogo volta com todos os sistemas de RPG icônicos da série. Desde os perks (habilidades especiais) até as ramificações narrativas, a essência de Fallout permanece intacta.
O sistema de progressão de habilidades (S.P.E.C.I.A.L.) ficou um pouco mais intuitivo e até mais claro de se entender. Enquanto isso, se Fallout 3 apresentava mecânicas de combate absolutamente deploráveis, Fallout 4 conserta boa parte dos problemas nessa área. E ainda que em nada se compare a finesse técnica de shooters da atualidade como Destiny ou Call of Duty, o combate cumpre seu papel, e é bom não ter que depender pesadamente mais do sistema V.A.T.S. (que era a única forma de se ter algum controle dos confrontos no jogo anterior).
O V.A.T.S. por sinal está de volta aqui, com a pequena diferença de que o sistema não mais paralisa o tempo por completo, mas apenas o desacelera, contribuindo para uma sensação de urgência muito bem-vinda à ação do jogo.
No que diz respeito a novidades, Fallout 4 traz um nível de personalização surpreendentemente profundo. Desde customização completa de armas e armaduras até um incrivelmente extenso sistema de construção de estabelecimentos, é impressionante o quanto pode ser alterado de modo a acomodar ao gosto do jogador.
Em sua estrutura intrínseca, Fallout 4 é um jogo bastante familiar para quem já teve contato com a série, e assim, é difícil recomendar o game para alguém que não tenha gostado deFallout 3 ou Fallout: New Vegas. Porém, se você sempre apreciou a alma da franquia, fique feliz, pois Fallout 4 é exatamente aquilo que você esperava (tanto em suas virtudes, como fraquezas).
APRESENTAÇÃO
Se no aspecto da jogabilidade, Fallout 4 mantém um padrão já estabelecido, é triste poder dizer o mesmo sobre suas qualidades no departamento técnico.
Rodando sob a mantra de uma versão modificada do mesmo motor de The Elder Scrolls V: Skyrim (sim, um jogo de quatro anos atrás e que, mesmo na época, já nem era tão bonito), Fallout 4 deixa bastante a desejar no aspecto visual.
Se uma das possíveis desculpas para os tropeços técnicos dos jogos da Bethesda na geração passada era a magnitude e dimensão de seus jogos, a mesma já não pode ser mais usada em pleno 2015, quando temos jogos com mundos-abertos igualmente imensos e densos como em Batman: Arkham Knight e The Witcher 3: Wild Hunt, mas que em nada deixam a desejar no aspecto visual e apresentam pouquíssimos soluços técnicos quando comparados a Fallout 4.
Desde quedas graves na framerate em momentos em que várias coisas povoam a tela, objetos com texturas pouco trabalhadas até as péssimas animações faciais dos personagens, é lamentável ver que a Bethesda optou por um motor gráfico “seguro”, ainda que problemático, ao invés de tentar construir algo do zero que funcionasse mais competentemente.
Ineficiência técnica a parte, porém, a equipe de artistas do estúdio merece aplausos por optar por uma paleta de cores notavelmente mais vibrantes para conceber o mundo do jogo. Ainda que flerte com a natureza de esterilidade dos ambientes conhecidos da série, é revigorante ver um mundo tão mais colorido como é a Commonwealth de Fallout 4. Desde os céus azuis até os grandes prédios que formam a Boston Dowtown do jogo, é difícil se sentir entediado pela diversidade visual que compõem as paisagens daquele mundo.
A trilha sonora composta por Inon Zur também merece destaque na forma extremamente versada em que contribui para a construção da atmosfera do jogo, seja pontuando os momentos de exploração do mundo ou nas batidas dos momentos mais agitados (e atenção especial para a belíssima versão do tema da série que o compositor apresenta aqui).
CONCLUSÃO
Fallout 4 é mais Fallout – para o melhor ou para o pior.
Mantendo intacta a essência de um RPG, com mecânicas de jogo um pouco mais refinadas, Fallout 4 ainda consegue brilhar naquilo que seus antecessores se destacavam: a criação de um mundo perceptivamente lotado de histórias, permeado por uma atmosfera de solidão e imersão que é raramente igualada em jogos do gênero.
Não fosse a inviabilidade técnica do jogo proporcionada por um motor gráfico claramente obsoleto, o game poderia facilmente figurar entre as experiências visualmente mais interessantes de 2015 – o que não deixa de ser um pouco decepcionante de se pensar.
Ainda assim, se você apreciou as experiências apresentadas em Fallout 3 e New Vegas, é certo que há muito a admirar em Fallout 4, que, facilmente, ainda figura entre os melhores RPGs da atualidade.
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