quinta-feira, 9 de junho de 2016

Análise – Homefront: The Revolution

 Escrito por John Milius, roteirista do aclamado Apocalypse Now do mestre Francis Ford Coppola, o Homefront original recebeu imensa atenção geral da indústria – tanto pelo calibre do nome por trás da concepção de sua história, como pela premissa da mesma, que se ambientava em um mundo onde os Estados Unidos era vastamente ocupado por forças militares norte-coreanas.
O resultado final, porém, era um jogo narrativamente ambicioso, mas que não fazia jus à sua proposição – sendo no processo também um shooter facilmente esquecível.
Depois de sobreviver ao falecimento da THQ e passar por mais um bocado de problemas durante seu desenvolvimento (o jogo chegou a trocar de desenvolvedora múltiplas vezes), Homefront: The Revolution chega, agora publicado pela Deep Silver, nas mãos da Dambuster Studios, com o intuito de “reimaginar” a premissa do jogo original sob uma nova ótica.
HISTÓRIA
Passando-se no âmbito da história alternativa, em um mundo onde a revolução tecnológica dos anos 70 ocorrida no Vale do Silício transcorreu na Coreia do Norte, fazendo desta a potência mais poderosa do mundo, acompanhamos o transcorrer de uma revolução de guerrilhas contra o autoritarismo coreano imposto na sociedade norte-americana, no caso, na cidade de Filadélfia, Pensilvânia.
Depois de ser salvo pelo líder da revolução, Benjamin Walker, o protagonista Ethan Brady é introduzido ao submundo da resistência contra o regime autoritário vigente. Ganhando a confiança de seus membros, Brady vai ganhando destaque na equipe revolucionária para eventualmente coordenar ataques em peso contra a ditadura norte-coreana.
Contextualmente interessante e ambientado em uma localização dos Estados Unidosvastamente sub-usada nos games (como um fã da série de filmes protagonizados por Rocky Balboa, a Filadélfia evoca minha simpatia naturalmente), Homefront: The Revolutioninfelizmente não faz proveito da mitologia que o próprio jogo cria.
Com personagens absolutamente terríveis para servirem de guias para o conhecimento daquele universo, sendo que as conversas – amparadas pelas mais genéricas das linhas de diálogo – parecem ser realizadas apenas na base da gritaria de um indivíduo com outro – estes sempre insuportavelmente arquétipos em personalidade. Para piorar, somos obrigados a tomar controle de um protagonista que, devido à sua natureza muda (recurso aqui completamente deslocado) parece apenas seguir as ordens que lhe são dadas, sem nunca haver um pingo de hesitação, além de em momentos em que está sendo gravemente acusado de algo por alguém, permanecer calado durante todo o tempo (aguentando a gritaria casual, é claro).
Com uma trama que se desenrola da forma mais básica possível, com “reviravoltas” previamente antecipadas, a história de The Revolution não faz a menor questão de contribuir para o estabelecimento de um universo novo (pelo menos, não de forma competente), fazendo-me repensar se Homefront realmente deveria ter voltado para “mais uma chance”.
JOGABILIDADE
Novamente adotando a perspectiva de um First Person Shooter, The Revolution se difere do original ao adotar a estrutura de um (semi) mundo-aberto.
Com um mundo dividido em seções, à medida que o jogador avança na história, novas locações vão sendo disponibilizadas para a exploração e realização de atividades paralelas.
Sem fazer um uso muito competente da estrutura mais aberta, Homefront: The Revolution cai rapidamente na organização genérica de um jogo de mundo-aberto – no caso, sem missões paralelas que se destaquem ou sequer valham o interesse (a não ser quando estas são obrigatórias para a progressão da narrativa principal).
Mecanicamente o jogo também falha em impressionar, com mecânicas de tiro que, apesar de não serem estritamente ruins, não podem ser elevadas ao status de eficientes também, pairando ali no espectro do funcional e apenas funcional. O jogo ainda faz decisões de design estranhas neste campo, como ao obrigar o jogador prender a respiração para estabilizar a mira ao usar qualquer arma (não apenas Snipers, qualquer arma).
Ao menos no que diz respeito à customização do armamento, Homefront apresenta uma mecânica interessante (ainda que no final das contas, desnecessária), dispondo um mecanismo de conversão, lhe possibilitando alterar a estrutura principal de uma arma, transformando à em outra no meio da ação (com animações de troca legais para a realização do processo).
Infelizmente no que toca ao design básico do mundo, o jogo volta a fracassar pavorosamente: forçando em múltiplos momentos que o jogador chegue a locais situados no topo de edificações ou estruturas do tipo, o game lhe obriga a descobrir e se deslocar das formas mais inoportunas possíveis – em determinados momentos lhe situando em situações que quase que exigem um uso de parkour, mas com o jogo, obviamente, não oferecendo o menor tipo de estrutura para o tipo de ação – rendendo vários e vários momentos de pura frustração.
Não se destacando no campo dos shooters e tropeçando na concepção de mundo-aberto, The Revolution simplesmente não tem ideias, nem execução apropriada o suficiente para valer atenção que se sustente durante suas mais de vinte horas de campanha.
APRESENTAÇÃO
Se narrativamente Homefront: The Revolution é desinteressante ao extremo e na jogabilidade e design o jogo não passa do ordinário, em sua apresentação o game desaba.
Injustificavelmente desastroso do ponto de vista técnico, o jogo roda de forma tão (mas tão) precária que várias vezes me peguei me perguntando como é que a Dambuster foi permitida de lançar o jogo em tal estado. Atingindo os habituais 30 frames por segundo como a exceção, o game tem sua performance habituada na casa dos vinte e poucos quadros. Mais incomodante ainda: todas as vezes que o jogo salva automaticamente (e ele o faz com imensa frequência – de poucos a poucos minutos, ou menos) o game literalmente congela por alguns segundos, contribuindo para uma sensação de frustração constante com a experiência. Para completar, o game ainda conta com uma variedade de bugs incontáveis, que vão desde animações atravessando paredes, comportamento incomum de seus NPCs, até personagens que simplesmente desaparecem do mapa.
Apesar de não ser plenamente vergonhoso do ponto de vista visual (como é tecnicamente), The Revolution também não faz esforço para construir uma identidade visual para seu universo. Sem características de aspecto marcantes, a direção de arte que concebe aquela Filadélfia vezes flerta com a ficção-científica (sem muita originalidade) vezes flerta com o militarismo costumeiro de FPSs, também sem muito êxito. Fora isso, duas seções particulares do mundo são particularmente tediosas só de serem lhe olhadas, consistidas basicamente de amontoados de pedras e destroços cinzas e marrons.
Não fosse o deplorável desempenho técnico, Homefront poderia ao menos ser uma obra que não lhe desestimulasse de continuá-la incessantemente.
CONCLUSÃO
Homefront: The Revolution é um jogo que, no seu ápice, se mostra como um game insatisfatoriamente medíocre.
Quando The Revolution não está lhe entediando com sua péssima história ou alguns de seus cenários sem-graça, o jogo está lhe frustrando com seu inaceitável desempenho técnico.
O game ainda tropeça ao adotar decisões de design intrinsecamente inconsistentes com a natureza mecânica do resto da obra. Além de tudo, mesmo como um shooter, jamais faz algo que o destaque perante ao resto de experiências do gênero no mercado.
No final das contas, Homefront deveria ter sido relegado ao esquecimento ao invés de tentar uma empreitada tão falha como este The Revolution.

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