Por: Luigi Wagner
Já se foi o tempo em que os videogames se tratavam apenas de obras de ação ou frenesi.
Com a ascensão dos jogos indies (aqueles que não disponibilizam do orçamento fornecido por grandes produtoras), os games deram origem à um número de experiências muito mais diversas do que era normal há alguns anos – afinal de contas, por não haver um chefão exigindo que seu trabalho apele à um público maior para efeito de retorno financeiro, o que reina é a criatividade.
Um dos frutos dessa nova era de indies foi o subgênero popularmente conhecido como “walking simulator”- jogos que envolvem praticamente andar por espaços, normalmente seguindo uma forte linha narrativa. Games como Gone Home, The Stanley Parable e The Beginners Guide atingiram enorme sucesso no âmbito crítico e até mesmo popular seguindo esta estrutura.
Primeira obra do pequeno estúdio da Campo Santo, Firewatch é o mais novo jogo do momento a se encaixar no gênero dos walking simulators.
Em 1989, um homem chamado Henry se qualifica para trabalhar no serviço de guarda florestal em algures das florestas do estado de Wyoming nos Estados Unidos.
Desprovido de quase qualquer contato humano – a não ser por comunicadores walkie-talkie com uma outra guarda florestal um pouco distante dali – Henry planeja achar no trabalho tempo e espaço para si mesmo e assim escapar dos problemas pessoais de sua vida antiga.
No outro lado da linha, e sua única espécie de contato interpessoal, está Delilah. Trabalhando naquele espaço há mais de uma década, a mulher é quem orienta Henry sobre seus deveres e fazeres em seu posto.
Seguindo a rotina de trabalho aparentemente banal de um guarda florestal, ao longo de Firewatch acompanhamos Henry e Delilah à medida que ambos trabalham em conjunto, tanto para resolver as mais triviais situações características de suas funções como na investigação de certos acontecimentos estranhos que começam a ocorrer naquela floresta.
Isto é tudo que você precisa saber sobre a história do jogo.
Apesar de controlarmos um personagem em um trabalho aparentemente fútil, Firewatch consegue trazer uma experiência narrativa que raramente dá lugar ao tédio.
Brilhando devido aos excelentes diálogos trocados entre Henry e Delilah, não importa se você não está realizando alguma tarefa necessariamente extraordinária momento-a-momento, é difícil não se engajar na conversa dos dois.
Com conversas que vão do prosaico ao pessoal, as discussões entre os personagens podem te levar ao riso em um momento, para lhe instigar em outro e então lhe emocionar em seguida.
Claramente influenciado pela belíssima (para dizer o mínimo) trilogia do Antes do Amanhecer (Sean Vanaman, roteirista do jogo, chegou a admitir a reassistir a trilogia de Richard Linklater inúmeras vezes antes de escrever certas passagens do jogo), Firewatch consegue trazer vários momentos memoráveis devidos exclusivamente à Henry e Delilah. E ainda que os diálogos entres os dois não necessariamente cheguem ao nível de marco e força emocional, pessoal e filosófico daqueles proferidos entre Jesse e Celine, não deixam também de serem particularmente emocionalmente instigadores na esfera que tratam.
Mas não é como se o roteiro de Vanaman fosse o único responsável pela primazia das conversas entres os dois protagonistas. Imensas aclamações também são devidas às espetaculares performances de Rich Sommer (o Harry Crane da série Mad Men) e Cissy Jones. Ambos os atores conseguem evocar os mais variados espectros de emoções através de simples entonações na voz, no final das contas, contribuindo para a personificação de dois personagens incrivelmente complexos, com suas virtudes e falhas como qualquer ser humano que se preze.
Infelizmente, não é como se Firewatch fosse livre de problemas narrativos.
Ao longo do desenvolvimento da relação de Henry e Delilah, acompanhamos também um aparente mistério envolvendo determinados acontecimentos estranhos pela floresta. Esta linha narrativa que norteia a trama de Firewatch, porém, é também seu maior tropeço.
Apesar de inicialmente conseguir extrair até um certo suspense da história, o “grande mistério” central da narrativa culmina em uma revelação que não só é extremamente desinteressante, como também completamente irrelevante para a base central da história, que é o relacionamento entre Henry e Delilah. A impressão é que tal “mistério” foi definido e encaixado na trama a fim de simplesmente adicionar uma conotação de suspense ao jogo – uma que infelizmente falha miseravelmente.
Ao menos no que toca a concluir o arco dramático dos personagens principais, Firewatch ainda consegue surpreender positivamente, terminando em uma nota admiravelmente honesta à jornada daquelas pessoas.
Sem apresentar mecânicas complexas demais, Firewatch segue o modelo tradicional de um walking simulator. Não há espaço para combates, quebra-cabeças ou quick-time-events. Você passa a maior parte do tempo andando pelo pequeno espaço “semi-aberto” do jogo, às vezes completando tarefas triviais como vigilância de um lago por exemplo, ás vezes explorando trilhas pela floresta, mantendo-se sempre ativamente em contato com Delilah ao walkie-talkie(ficando a escolha do jogador optar por várias das respostas durante as conversas).
A ausência de mecânicas arranjadas nem chega a ser um problema, considerando se tratar de um jogo em que o foco é tão obviamente a narrativa, e durante suas três a quatro horas de duração, Firewatch raramente apresenta momentos de tédio (sendo beneficiado pela interessante montagem do jogo, que omite vários dos dias passados na história em favor dos momentos realmente relevantes para a mesma).
Firewatch apresenta um estilo visual peculiarmente particular também. Desde a textura dos objetos, ambientes, personagens até a paleta de cores escolhida para representar as florestas de Wyoming, o jogo apresenta um visual que não apenas beira o cartunesco, mas praticamente o abraça – o que é particularmente interessante, considerando o contraste com o teor maduro da narrativa. Vale notar ainda que o game conta com uma trilha sonora absolutamente impecável, que contribui pesadamente para a construção da atmosfera ambiental e até emocional da história.
Lamentavelmente, para rodar os visuais bonitos, o game não tem a melhor das performances – especialmente na versão do PS4. Desde constantes e notáveis quedas na framerate até frequentes pop-ups (objetos ou texturas que aparecem “do nada” nos cenários), Firewatch claramente faltou de polimento técnico, o que é uma pena, considerando o estilo visual artístico do jogo.
Firewatch é uma experiência diferenciada do que estamos acostumados a ver no âmbito dos games – mesmo no gênero que trata – e por isso só já vale a jornada.
Tirando o grave tropeço que comete com determinadas partes de sua narrativa e seus insistentes soluços técnicos, o jogo consegue ser uma obra particularmente memorável.
Com dois personagens principais incrivelmente interessantes, o jogo certamente anseia pela discussão após ser terminado, e isso não é algo que podemos dizer todo dia sobre um trabalho de arte.
E no final das contas, qualquer obra que se valha minimamente de comparação à trilogia de Antes do Amanhecer já é algo especial em meus parâmetros de avaliação.
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